Chamada pública: dossiê Fake news e saúde – Reciis v.14, n.1 - 2020

A proliferação de notícias falsas envolve o controverso tema da autoridade jornalística, mais especificamente o domínio dos sistemas profissionais de jornalismo sobre a totalidade do processo de produção noticiosa. Historicamente, esses sistemas profissionais sempre conviveram com práticas oriundas da cultura popular, como boatos, rumores e fofocas.  Com isso, vem à tona o surgimento de alguns ‘ismos’ nas práticas jornalísticas: o sensacionalismo (representado pelo noticiário de crimes), o tabloidismo, as colunas sociais etc.

Essas questões tornam-se vitais para a discussão sobre a presença, e a invasão, de outsiders nas fronteiras da comunidade profissional, ao explorarem fenômenos mais recentes como o ‘videojornalismo’, a produção de notícias online em tempo real, o desnudamento de rotinas produtivas antes inacessíveis ao público e uma maior popularização dos mecanismos de busca, de coleta e mineração de dados, recursos que acabaram por facilitar o domínio do processo noticioso por diletantes paralelo ao crescimento do fenômeno das notícias falsas.

A análise do contexto atual de produção da notícia nos mostra que essa realidade não significa uma possível ‘morte’ do jornalismo, pelo contrário, simboliza a sua expansão, ao colocar em questão a autoridade profissional e os usos da máquina social de fabricação e de interpretação dos acontecimentos. Em vista disso, a proliferação de blogs pode ser vista também como um exemplo da capacidade de apropriação dos códigos e convenções jornalísticas mais institucionalizadas por parte de outsiders, tornando o controle da produção noticiosa algo cada vez mais difícil para os sistemas profissionais do jornalismo.

Assim, a Reciis pretende com esse dossiê também contemplar a premissa do fenômeno das fake news associado à circularidade entre as dimensões anárquicas do processo noticioso das redes sociais e digitais em conjunto com o caráter hierárquico e aparentemente organizado das mídias tradicionais. A fim de promover a análise dessa zona de convergência e divergência que representa essa cadeia comunicativa, convidamos os autores à discussão e à análise da produção de fake news e suas múltiplas correlações com o tema saúde, envolvendo as políticas do ‘cuidar de si’ (formas de comer, educar o corpo, emagrecer etc.), da promoção da saúde (prática de exercícios, uso de drogas lícitas ou ilícitas, padrões estéticos do corpo saudável, sexo etc.) e das políticas públicas (Mais Médicos, campanhas de vacinação, combate às doenças tropicais como dengue, chikungunya etc.).

 

 

Como sugestão, propomos, para esta chamada, os seguintes eixos articuladores:

 

  • Historicidade da produção noticiosa em sua relação com ideias de verdade;
  • Diferentes práticas discursivas em torno do verdadeiro e do falso: rumores, boatos e fake news;
  • Processos de midiatização e mediação das fake news;
  • Impactos das notícias falsas nos setores da saúde;
  • Desafios da comunicação e informação no enfretamento das fake news;
  • Falseamento como estratégia de desmoralização;
  • Interseccionalidade entre comunicação e saúde;
  • As políticas do cuidar de si em tempos de pós-verdade;
  • Circularização das fake news na promoção da saúde;
  • Políticas e estratégias de combate a fake news no campo da saúde;
  • Produção de fake news nos territórios digitais;
  • Narrativas anticiência;
  • Discurso, (des)legitimação e saúde.

 

 

 

Editores convidados: Marco Roxo e Seane Melo

Prazo de submissão de artigos: até o dia 02 de dezembro de 2019

Publicação: março de 2020

 

Textos que motivaram a discussão:

Bock M. Citizen video journalists and authority in narrative: reviving the role of the witness. Journalism. [Internet]. 2011; 13(5):639-653. doi:10.1177/1464884911421703.

 

Boyd D. Did Media Literacy Backfire? Data & Society: Points. 2017 jan. 05. [citado em 2018 abr. 27]. Disponível em: https://points.datasociety.net/did-media-literacy-backfire-7418c084d88d.

 

Burroughs B.; Burroughs WJ. The Masal Bugduv hoax: football blogging and journalistic authority. New Media. 2011;14(3):476-491.

 

Caplan R. How do you deal with a problem like "fake news"?. Data & Society: Points. 2017 jan. 05. [citado 2018 abr. 18] Disponível em: https://points.datasociety.net/how-do-you-deal-with-a-problem-like-fakenews-80f9987988a9.

 

Carlson M. Order versus access: news search engines and the challenge to traditional journalistic roles. Media, Culture & Society. 2007; 29(6):1014-1030.

 

Karlsson M. The immediacy of online news, the visibility of journalistic processes and a restructuring of journalistic authority. Journalism. 2011; 12(3):279-295. doi: 10.1177/1464884910388223.

 

Nerone J. The historical roots of the normative model of journalism. Journalism. 2013; 14(4):446-458.

 

Rancière J. As novas razões da mentira. Folha de S.Paulo. Caderno Mais!. 2004 Ago. 22.

 

Sodré M., Paiva R. Informação e boato na rede. In: Silva G. et al., organizador. Jornalismo contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. Salvador: EDUFBA; 2011. Compós, 2011.

 

Zuckerman E. Fake news is a red herring. Deutsche Welle, 25/01/2017. [citado em 2018 abr. 27]. Disponível em: http://www.dw.com/en/fake-news-is-a-red-herring/a-37269377.