Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, Vol. 5, No 4 - Temático - Saúdes, corpos e contextos interculturais

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RECIIS – R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde. Rio de Janeiro, v5, n.4, Dez., 2011
[www.reciis.icict.fiocruz.br] e-ISSN 1981-6278

* Resenha

“Saber Prático de Saúde. As lógicas do Saudável no Quotidiano” discute os conceitos do saudável e do bem-estar, e revela a sua contingência social e cultural.

DOI:10.3395/reciis.v5i4.563pt

Fátima Alves
CEMRI – Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, Universidade Aberta, Portugal
fatimaa@univ-ab.pt

 

Saber Prático de Saúde. As lógicas do Saudável no Quotidiano,
por Luisa Ferreira da Silva, Porto, Edições Afrontamento, 2008
ISBN-13: 9789723609110

A autora, Luísa Ferreira da Silva, socióloga que centra a sua atividade de investigação no campo da saúde e doença, procura, na investigação descrita neste livro, questionar experiências de saúde e bem-estar. Neste trabalho são propostas a análise e a interpretação do conhecimento leigo e das práticas cotidianas relativamente à saúde e bem-estar, adotando uma abordagem abrangente baseada em metodologias qualitativas. As entrevistas em profundidade conduzidas numa amostra da população, diversificada e estatisticamente não representativa, da região norte de Portugal, permitiram trazer para o conhecimento sociológico informação, reflexões e interpretações que dificilmente seriam conseguidas usando outros métodos.

As abordagens sociológicas neste campo de estudo, conhecido inicialmente como “sociologia médica” e depois como “sociologia da saúde e da doença”, têm um longo percurso histórico que pode ser conhecido neste livro – rico em referências ao principal trabalho produzido neste campo. O trabalho marca a sociologia da saúde e da doença e coloca um desafio às ciências da saúde (medicina e seus profissionais) e às próprias ciências sociais: a criação de espaços de diálogo e articulação de visões que permitam construir conhecimento mais próximo das realidades sobre as quais reflectem e actuam.

As preocupações das ciências sociais com a saúde e a doença, e com o bem-estar social e individual, revelam um dos debates clássicos da sociologia entre a dualidade estrutura e agência: Até que ponto as estruturas definem a saúde? Até que ponto podem as pessoas controlar a própria saúde? Estas preocupações relacionam-se, por um lado, com o peso que as estruturas culturais, sociais e econômicas têm na determinação das possibilidades de saúde nas vidas das pessoas. Por outro lado, relacionam-se com o limite até onde as pessoas, através das suas próprias ações individuais ou colectivas, conseguem ter algum controle sobre a sua própria saúde. De fato, as ciências sociais têm produzido percepções e interpretações neste campo, revelando a importância dos contextos (não apenas estruturais e institucionais mas também relacionais) em que são vividos e experienciados estes fenômenos, e o universo de representações que os actores interpretam e atuam.

No contexto das mensagens contraditórias que dominam o paradigma da saúde e bem-estar, a pesquisa sociológica mostrou, através de entrevistas e inquéritos, formas diferentes de expressar a saúde – o conceito, as práticas cotidianas e os comportamentos saudáveis – em relação aos fatores sócio-econômicos que lhe estão associados. Este estudo segue a compreensão da incorporação dos discursos normativos dominantes sobre o saudável nos pensamentos e práticas leigas, conduzindo a pesquisa no sentido da observação das práticas cotidianas e das representações relativamente à saúde e bem-estar e às formas de efetivamente ter uma vida saudável. Por outras palavras, o estudo procurou clarificar as interinfluências entre os conceitos de saúde (expressos numa entrevista) e a realidade da saúde vivida diariamente (a relação entre atitudes e comportamentos), bem como a sua relação com as mensagens de saúde e bem-estar.

O objetivo deste estudo tem foco no ponto de vista leigo sobre noções de saúde, bem-estar e vida saudável. A pesquisa foi dirigida para as lógicas das práticas, os seus sentidos e significados, procurando as racionalidades subjacentes às decisões que envolvem escolhas. Esta pesquisa permitiu à autora distinguir disposições para acreditar e para agir. Isto é, embora exista interiorização individual efetiva dos modelos de comportamento dominantes (mostrado, principalmente, no nível dos discursos – disposições para acreditar), tal não resulta em disposições práticas efetivas (disposições para agir).

Os resultados desta pesquisa são apresentados em três capítulos principais, onde as racionalidades leigas, produtos de conhecimento prático, são uma ferramenta heurística para discussão e revelação da cultura e da sociedade portuguesa.

No primeiro capítulo, focado na “promoção do saudável e da saúde através do indivíduo”, a autora define os princípios que suportam a pesquisa – o domínio da saúde pela medicina, a construção social de saúde e doença, a incorporação do saudável na vida cotidiana e a complexidade do saber leigo.

No segundo capítulo, dedicado ao “saudável na vida cotidiana”, a autora dá a conhecer os resultados relativos à pesquisa empírica ao nível da compreensão dos significados de bem-estar e saúde. Apesar de encontrar várias concepções de saúde, a saúde como destino (em vez de produção de modo de vida) foi encontrada nos discursos. Esta dimensão da saúde não integra discursivamente a noção de bem-estar, mas está presente como sua condição. O bem-estar aparece mediado por três tipos de relação que o determinam e que a autora define como “familiar relacional”, “satisfação no trabalho” e “gratificação profissional”.

O pensamento leigo sobre saudável, integrando elementos da normatividade das práticas, característico dos discursos dos peritos, mostra lógicas distintas, baseadas em dois pontos. Por um lado, por vezes significa comportamentos (propósitos médicos) ou sensações (significados subjetivos). Por outro lado, relaciona-se com o modo de vida e opõem o cotidiano moderno ao mais tradicional. Do ponto de vista das práticas, a autora direciona a sua análise para comportamentos de saúde ao nível da nutrição, exercício e envelhecimento, onde se percebe uma relação mais explícita entre estruturas e agência individual, permitindo, deste modo, perceber a coexistência de discursos públicos e privados na explicação das concepções e das práticas.

O tema “Saúde e Doença” é discutido no terceiro capítulo, onde a autora apresenta os resultados relacionados com a saúde como preocupação de doença (prevenção médica, riscos sociais, responsabilidade pela saúde e representações sociais) e com a própria doença e o desconforto na relação com a medicina (os conceitos de doença e as suas causas, a sua relação com os sistemas terapêuticos – o dominante e o alternativo).

Este livro revela a existência de uma “cultura de resistência” à orientação especializada das práticas e reivindica um conhecimento prático de saúde que é organizado em práticas de bem-estar, saúde e doença no cotidiano. A grande variedade de conceitos-chave e argumentos criados e recriados para reportar a análise de dados constitui um contributo significativo não apenas para a compreensão da relação leiga com a saúde, bem-estar e modos de vida, mas também, de forma mais crucial, para a própria sociologia da saúde e da doença. A discussão neste livro é um ponto de partida para uma nova pesquisa, procurando estudos mais quantitativos, que permitam validar este conhecimento em universos comparativos e mais vastos.



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ISSN: 1981-6278